Metrô

Quando o primeiro trem parou na República tive a impressão que, se todas as paredes dos vagões fossem removidas ao mesmo tempo, aquele bolo de gente iria se desfazer de uma só vez e todos iriam ao chão.

Eram seis horas da tarde e o sol do lado de fora impiedoso. Alguns dizem que é o aquecimento global; já eu me lembro de sentir esse mesmo calor e reclamar dele desde que nasci. Ali embaixo da terra estávamos protegidos do sol, mas era como se estivéssemos numa sauna. Algumas centenas de pessoas, e todas pingavam suor.

A porta do trem se abriu. Umas quinze pessoas na minha frente tentavam entrar, mas apenas uma conseguiu se espremer e se encaixar entre os passageiros abarrotados lá dentro. Não havia nada a fazer a não ser esperar o próximo. Mas o segundo trem veio ainda mais cheio. Desta vez ninguém se mexeu. Atrás de mim a fila aumentava e pessoas continuavam a chegar. Comecei a achar que ainda demoraria uns quarenta minutos só para conseguir sair dali. Foi quando vi um trem totalmente vazio se aproximando. Fiz cara de alívio e percebi a mesma expressão em vários rostos ao meu redor. Mas o trem passou reto. Dali a alguns minutos, outro trem vazio. Também passou reto. O próximo veio novamente abarrotado. Parou. Umas dez pessoas conseguiram entrar. Eu ali, espremido, enxuguei uma gota que escorria da testa e tentava entrar no meu olho. Lágrima ao contrário – foi o que me veio à cabeça.

Comecei a prestar atenção em um  casal que conversava na minha frente. O rapaz olhava pros lados e estalava a língua fazendo barulho de quem está impaciente. A moça sorriu. Calma que o próximo trem vazio vai parar – disse ela com ar de quem passa por isso todos os dias. Aquilo me aliviou. É caótico mas existe um planejamento – pensei comigo mesmo. 

Como anunciara a menina, o próximo veio vazio e parou. Não precisei nem fazer esforço. Fui empurrado pra dentro. Em segundos todos os espaços estavam preenchidos. Eu desceria dali a duas estações, na Sé, onde pegaria outro trem para a Praça da Árvore. Se eu já não soubesse que muita gente desce sempre na Sé pra trocar de trem, talvez tivesse me desesperado. Eu estava longe da porta e impossibilitado de qualquer movimento. Olhando por cima via mãos penduradas e rostos cansados. Parecíamos um bando de bichos-preguiça.

Ao descer, vi na estação uma loja que vende panetone  e lembrei que o ano está acabando.  Tinha mais um trem pra pegar e a minha volta um monte de gente pingava suor. Dejavú. Da próxima vez tento marcar o dentista fora da hora do rush.

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A turma do fundão

Por pura preguiça de subir a ladeira, resolvi  ir de  ônibus . A pé normalmente é mais rápido, uns vinte minutos da Martins Fontes até o cruzamento da Augusta com a Paulista. O ônibus talvez demore esse tempo só pra passar. Mas é subida e o calor, insuportável.

No ponto, cinco meninos. Descalços, sujos e alucinados. Todos parecidos, estereótipo de meninos de rua mesmo. Entre eles estava o  Alemão. Era assim que seus amigos o chamavam. Pele clara, cabelo encaracolado, olhos azuis. Bem menor que os outros e, ainda assim, parecia liderar o grupo. Levava, em uma das mãos, uma placa. Daquelas que ficam na lateral dos ônibus com o nome das ruas. Na outra, um saquinho cheio de uma pasta amarelada que ia ao nariz e à boca de tempos em tempos.

 Quando me percebeu ali, enfiou o saquinho no bolso de trás do short rasgado e correu em minha direção segurando a placa como o troféu de um campeonato. Corria e gritava:

 – Tá vendo essa placa aqui, tio? Roubei do ônibus. Aquele motorista, cuzão, não deixou a gente entrar de graça! Aí roubei! Tá vendo aqui?

 De costas para mim, ele começou a ler. Bem devagar, como quem está aprendendo:

– Man-da-qui. Ele vai pro Mandaqui! Manda aqui, manda ali! Parece até eu!

Os outros meninos começaram a empurrar o Alemão como que pra dizer que ele não mandava nada. No alvoroço um deles deixou cair uma faca. Tremi. Mas eles não estavam ali pra roubar, queriam era uma carona no ônibus.

Nesse momento aproximou-se de nós uma moça com um menino de uniforme do colégio. Ao reparar naquela garotada ela apertou a mão do filho, que resmungou: – Ai, mãe! – Ao mesmo tempo um dos amigos do Alemão tentava roubar o saquinho de cola do bolso de outro. – A minha já secou! – Apavorada, a mãe apertou a mão de seu filho ainda mais forte. – Ai, mãe!- Os dois se foram. A pé mesmo; e com pressa.

A molecada pegou o mesmo ônibus que eu. Ao ver a placa  roubada na mão do Alemão, o motorista enrugou os olhos, fez bico puxando a boca para o lado direito do rosto e o encarou. Como faz o pai com filho desobediente. O menino, com o peito cheio e um sorrisão, disse:

– Obrigado, tio!

Sentou-se na última fileira, ao lado de seus coleguinhas. bagunçavam, cantavam e faziam de tudo para chamar a atenção dos outros passageiros. Feito ônibus de excursão de colégio.

-Che Romaro

(Baseado em fatos reais)

ps: Caso alguém queira utilizar os textos postados nesse blog, sinta-se a vontade, só peço que creditem da seguinte forma:

Texto do blog http://www.daquidecima.wordpress.com por Che Romaro. 

Obrigado!

Ordem, retrocesso.

No país do progresso, do congresso, do arcaico.

Do fome zero, da sujeira, do Sarney, do Gabeira.

Daslu, Daspu.

Do Chico, do Caetano, da Tati quebra barraco.

No país do futuro. No país do atraso.

Moral, amoral e imoral

O país do carnaval.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador?

Pelo jeito existe.

 

-Che Romaro

Por mais mini saias e menos hipocrisia!

Do Início

Um dia encantei-me por uma paisagem. Procurava um novo lugar pra morar. Ainda não tinha procurado tanto assim. Mas, no centro dessa metrópole e do alto do vigésimo sétimo andar, hipnotizado, encontrei meu novo lar. Daqui de cima o mundo é ao contrário. As luzes ofuscam as estrelas e tornam-se os astros luminosos a serem contemplados. 

São Paulo. barulhenta, poluída e linda. Daqui de cima a cidade  é a via láctea. Constelações de prédios e barulhentos cometas, que quando vêm são brancos e quando vão são vermelhos, compõem um cenário magnífico que, de perto, nem sempre é tão bonito assim. O espetáculo das antíteses.

Daqui de cima um ponto de vista. Daqui de cima, sobre aquilo que der vontade.

.Via láctea

Foto por: Shelka