Copacabana

COPACABANA

– É igual na novela!

O maiô, não.

O corpo, imenso.

E o mar.

Estrias, água, grãos, veias.

Branco, azul, branco, azul.

Quando era linda sonhou em nadar.

Hoje as ondas não deixam.

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Tem gente remando na TV.

Ao vivo:

– Foi tudo. Geladeira, máquina de costura, gato, fotografia das crianças, tudo. Que é que eu faço agora, meu padinho Ciço?

Desligo.

A janela é anti-ruído. Tomo um tapa ao abrí-la.

Dá pra ver um exército de guarda-chuvas nas calçadas.

Resolvo me alistar.

Aperto o gatilho e ouço pingos na lona preta. Miravam minha cabeça.

Sigo uma morena.

Se ela parar para um café, vou puxar assunto, conhecer seu sorriso.

O cheiro dela

Viu-se só
Buscou, no violão, companhia.
Congelou-lhe a coxa.
E não tinha o cheiro dela.

A Deusa

Olhou pra ela com olhar de bobo.
Com aquela cara de quem adora deusa.
A Deusa dele.

Olhou pra ela com olhar de choro,
E viu naquela cara de quem sabe que é deusa.
Que a Deusa fere.

Saudade

No rádio a música diz que a saudade é melhor do que caminhar vazio. Ele concorda.

Foi só ela entrar naquele avião que a nova companheira já preencheu o espaço em seu peito. Saudade. Ela só existe em português, e só podia ser feminina.

É costante. Uma mistura de felicidade e amargura. Felicidade porque traz, a todo instante, imagens de momentos maravilhosos ao lado dela. Imagens seguidas de um sorrisinho quase imperceptivel. Por um milêsimo de segundo ê capaz de estar de novo ali com ela. Mas passa rápido e fica um gosto amargo. Gosto de vontade de ir busca-lá.

Com ela ele funciona melhor. Sem ela o corpo reclama, é quase um instinto.

Saudade é crise de abstinência que não melhora com o tempo.

@CheRomaro

Impiedoso amor.

Certo dia acordou angustiado. Há tempos sentia-se infeliz e insatisfeito. Ollhou ao redor em busca de culpados. Não os enxergou. Resolveu culpar o amor. Enfrentou o suposto inimigo e o expulsou de sua vida sem pensar duas vezes. Era uma tentativa desesperada de sentir-se melhor. Em vão.

O amor, cruel e rancoroso como só ele pode ser; tomou atitudes, contra-atacou, castigou o pobre rapaz com uma espécie de maldição. Atirou-o em uma tristeza profunda e avassaladora. Tristeza amarga que não dava sinais de ser passageira, pelo contrário, tinha um gosto de eterna que só amarrava ainda mais a boca.

Jogado, sem forças e arrependido pegou-se pensando nos contos de fadas. Finalmente foi capaz de entender aqueles príncipes malucos que enfrentam dragões e bruxas poderosas. Movem-se por amor, astutos que são. Sabem que ao fugirem de tão poderoso sentimento sofrerão mais do que por qualquer ferida causada por um monstro enfurencido. Pois, o amor  não concebe ser ignorado. Sua dor é cruel, perpétua e impiedosa.

Decidiu lutar contra seus monstros e ao lado do amor.

@CheRomaro

Até aqui.

Como num piscar de olhos, vinte e sete. Ele, que já passou por tantas e tão variadas experiências, ainda não se sente maduro. Talvez porque saiba que a maturidade não venha das experiências, como pensa a maioria. Mas, sim, da intensidade com a qual essas experiências são vividas.

Têm, por exemplo, aqueles que viajam o mundo todo, mas não conhecem lugar algum. Simplesmente passaram, tiraram fotos e partiram para a próxima paisagem. Admiradores de paisagens. Ficam ali, vendo a vida passar. Parece que dói menos se somos só observadores e não parte de tudo. Se aquilo não me pertence e não me toca é mais fácil de seguir em frente. Pelo menos enquanto não se olha para o espelho. O espelho não mente, e as marcas do tempo não dão chances para ludibríos. Elas nos fazem lembrar que somos finitos.  As marcas do tempo chegam iguais nos rostos dos admiradores de paisagens. Mas muito mais impiedosas e angustiantes do que naqueles que se implicaram e fizeram, de algum jeito, parte da paisagem.

Estes, os que são parte da paisagem, às vezes não conhecem tantos lugares assim. Mas sabem que aquele lugar do qual fazem parte nunca é o mesmo. Assim são capazes de conhecer milhares de mundos só ali, na percepção da mudança. na pré anunciação das rugas por vir. Constroem, então, um projeto, batalham por ele, e lá na frente, quando olharem no espelho e sentirem as marcas do tempo, vão também se angustiar, mas, poderão confortar-se. O tempo não foi perdido.

Aos vinte sente ele ainda não sente-se maduro. Mas olha para trás e sabe que não foi um admirador de paisagens, pelo menos não o tempo todo. Tinha um sonho adolescente, e foi atrás dele. Ainda não está onde queria. Mas sente que falta pouco. Está no caminho certo. As marcas no rosto mostram que não lhe resta muito tempo. E, como já ouviu de um amigo por aí, é essa urgência avassaladora que ajudará com um último empurrãozinho. Sente que é agora ou nunca. Se assusta, mas segue em busca da maturidade. E vai chegar.