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Isso não é um poema

1.

Da rede que fica pendurada na sacada vejo folhas agitadas. Flambadas pelo vento. As badaladas contam doze. E eu derreto.

2.

Sento num café e finjo que sou poeta.

Nada do que escrevo presta.

E já acabou a fome.

3.

Ela diz que pra vir o tesão eu devo toca-la na bunda.

Às vezes penso que ela é de mentira.

4.

Abelha perde abdômen

em prol da rainha.

O dedo dói.

Mas a Coca é minha.

Só minha.

O Cara do chapéu

Primeiro ela sorriu. Depois desviou o olhar pro chão. Como quem diz – vem cá – enquanto finge que tá com vergonha. Safada. Mas eu não fui de primeira. Porque queria ficar bêbado antes. E matei uma dose de whisky, e depois um shot de vodka, e mais um.

Um cara parou do meu lado. Ele tava de chapéu. Se achando estiloso e original. Pensei que chapéu tava na moda. E que deixava mesmo o cara estiloso. Mas original, nem fudendo. Ele perguntou se eu era de lá. Eu disse que não. Ele disse que já desconfiava. Porque nunca tinha me visto. Perguntou meu nome. Perguntou se eu tava gostando. Eu tava. Mas queria que ele ficasse quieto. – Perder tempo de balada falando com macho é foda. Falei isso olhando no olho dele. Ele foi embora.

Pedi uma tequila e uma cerveja. – Itaipava não, Heineken mesmo, por favor – Depois fui até a gostosa que sorriu pra mim. Cheguei puxando pela cintura e já tasquei um beijo no pescoço. Foda-se que eu nem sabia o nome dela. Mulher curte essa parada que eu tô ligado. Ela virou a cabeça pro lado contrário. Pra aumentar a superfície de contato. Eu senti ela ficando toda arrepiada. Não disse que mulher curte essa parada? Encostei ela na parede. E pensei que já tava no papo.

E tava. E lambia a minha orelha. E abriu um pouco as pernas. E lambia a minha orelha. E suspirou quando eu pressionei a xana dela com a mão. E lambia a minha orelha. E gemeu ao mesmo tempo que eu senti a calça dela ficando quente. E lambia a minha orelha. E viu o cara de chapéu passando atrás da gente. E lambia minha orelha. E achou ele estiloso. E lambia a minha orelha. E lembrou que ela mesma escolheu o chapéu dele. E lambia minha orelha. E fez cara de atriz pornô. E lambia a minha orelha. E percebeu que ele tava com cara de quem queria que a minha orelha fosse a dele

– Ai, calma, vamos dançar um pouco – Ela disse isso e me empurrou pra trás.

Eu fiquei puto. Mas disfarcei. Porque ela era uma gostosa. Dançar só é útil pra agarrar mulher, porra. E eu já tinha feito isso. Dançar acompanhado é quase tão estúpido quanto perder tempo com macho na balada. Eu enxuguei a baba do ouvido com a manga da camisa. E vi que meu copo tava vazio. Falei que ia até o bar. Ela disse que ia ficar me esperando ali na pista. E que queria uma caipiroska de kiwi. Caipiroska de kiwi? Será que queria um caviar também? Eu só não falei isso em voz alta porque ela era uma gostosa.

Quando voltei vi que ela não tava mais dançando. Tava atracada com o cara de chapéu. Ele apertando a bunda dela. Ela lambendo a orelha dele. Eu parado com a porra da caipirinha de kiwi e o copo de cerveja nas mãos. Ela lambendo a orelha dele. Quando eu cheguei perto ela olhou pra mim com cara de atriz pornô. E lambeu a orelha dele. Chamei ela de Vadia do caralho. Ela riu. – Tá rindo de quê? Ele disse pra eu ficar calmo. – Calmo é o caralho! – Tava tudo girando. – Ele é meu namorado! – Namorado é o caralho! – Eu virei a caipiroska de Kiwi num gole só. E armei um soco na cara dele. Ele deu um passo pro lado. Eu fui pro chão.

– Não disse que essa história de arranjar um cara pra um menáge era arriscada? Ela falou isso enquanto ia embora abraçada com ele.

E eu fiquei ali caído feito um bêbado de merda.

Spray

Lágrimas no concreto.

Relógios de Dali.

Que não deram certo.

Grávida no Rio

O céu tremia.

Por causa das crateras na estrada.

Às vezes a lua cheia virava duas.
Depois se juntava de novo.
Como um óvulo fecundado
desistindo de se dividir.

Culpa das lágrimas.

Lembrou das palavras vazando
pelos espaços dos dentes dele.
Cerrados de ódio.

E chorou mais.

Quando desceu na rodoviária já era dia.
Tomou um tapa dos 40 graus.
.
Deu graças a Deus que o táxi tinha ar-condicionado.

– Arpoador, por favor.

No caminho o Rio parecia um adolescente crescendo.

Primeiro feio e desajeitado.
Depois arrumando a postura.
Até se tornar sensual e belo.

` Isso aconteceu depois que atravessaram um túnel qualquer.

Viu a Lagoa.
Viu pedalinhos em forma de cisne.
Viu uns moleques jogando bola.

E sorriu por um instante.

Até que lembrou das amigas dizendo que ela era louca.
Viajar sozinha com a barriga daquele tamanho?

E pensou que loucura
era ficar lá.

Na mesma cidade
que aquele monstro.

Ele disse que o filho não podia ser dele.
Que ela era uma vagabunda.

E que vagabunda tinha que ser tratada como vagabunda.

Aí jogou ela na cama à força.
E baixou as calças até o joelho.

Ela fechou os olhos.
E aguentou.
Seca.

Por medo de machucar o bebê.

Amanheceu com nojo e jurou que iria embora pra sempre.

– A senhora vai descer aonde?
– Hotel Arpoador Inn.

Foi direto pra praia.

Olhou em direção ao Vidigal.
Reparou no arco de texturas.
Mar areia asfalto prédios.
Arpoador Ipanema Leblon.

Mas não se animou com o que viu.

Nuvens pretas vinham de longe.
Preenchendo tudo o que era azul.
Transformando a manhã em noite.

Nessa hora o pensamento foi parar
no dia em que conheceu o monstro.

Estavam esmagados um contra o outro.

Pela baiana do acarajé.
Pela gorda ouvindo axé no celular.
Pelas crianças de nariz escorrendo.
Pelo professor de capoeira.

O elevador Lacerda fedia.

– Sim, eu também pensei que fosse um passeio turístico.

Ele fez ela rir com esse comentário.
E pensou que ela era linda quando ria.

Resolveram continuar o passeio juntos.

Conheceram a Igreja do Bonfim.
Conheceram o Mercado Modelo.
Conheceram o Pelourinho.

No fim do dia estavam
com a sensação de serem
íntimos há tempos.

Ela não resistiu ao convite
de passar a noite com ele.

Acordaram encaixados.
Sem querer desencaixar.

No Arpoador, ondas invadiram o calçadão.
Pessoas tentavam nadar pra terra firme.
A margem, cada vez mais longe.

O céu se encheu de guarda-sóis.
Arremessados pra cima pelo vento enfurecido.

Ela perdeu o ar.
Atingida na barriga por uma das estacas voadoras.

Correu pra se abrigar.

Sentiu a perna ficando quente
com a água que descia
de dentro dela.

Entrou no saguão berrando.

– A bolsa estourou! Pelamordedeus! Alguém me ajuda!
– Calma, moça! Eu sou médico.
– Me leva pro hospital! Por favor!
– A cidade tá um caos!
– E agora?
– Fica calma. Vai dar tudo certo!

Ele pediu que trouxessem umas toalhas.
Ele pediu que ela deitasse no sofá.
Ele pediu a Deus que o ajudasse.
Ele pediu pra ela fazer força.

O bebê escorregou por uma gosma
cremosa, vermelha quase preta.
Primeiro a cabeça depois o resto.

Nasceu!

Morto.

Do lado de fora os guarda-sóis descansavam em cima de quiosques.
E pessoas se abraçavam sem acreditar que ainda estavam vivas.

O vento tinha parado de gritar
O mar tinha voltado pro lugar.

Ela pegou o filho no colo e ficou agarrada nele.
Sem querer soltar.

Cinema. Sozinho ou acompanhado?

Ir ao cinema sozinho é diferente de ir ao cinema acompanhado. Ir ao cinema acompanhado é diferente de ir ao cinema acompanhado.

Existem diversas modalidades de ir ao cinema acompanhado. você pode ir com a sua namorada. Você pode ir com um amigo. Você pode ir com a gata do curso de inglês (aquela que te considera o melhor amigo dela).

Se você for ao cinema com a namorada você pode assistir ao filme ou não. Tudo depende do estágio do namoro. Se estiverem juntos há pouco tempo, o cinema vai ser desculpa pros amassos. Mas, se for um namoro mais longo, aí vocês vão ver o filme todo e se pegar depois. Principalmente se você tiver mais de dezoito, grana ou um sogro legal. Com mais de dezoito e grana você pode ter um carro, um apartamento só seu, ou levar sua namorada pra um motel. Com um sogro legal você não precisa ter nada disso e pode usar o quarto dela. A vantagem de poder assistir o filme com a namorada e deixar os amassos pra mais tarde é que aí não tem chance de você ser chamado de tarado por alguma velhinha aposentada que não sai do cinema.

Ir ao cinema com um amigo é legal, mas pode ser um saco. Depende do amigo. Pode ser que ele seja meio lerdo e que nunca entenda nada. Aí vai passar o tempo todo te perguntando coisas do tipo: “Mas, calma aí, esse cara é aquele mesmo que beijou aquela loira no começo?” Ou, pior, ele pode ser daquele tipo que fica tentando adivinhar a fala dos personagens. Ele erra quase sempre, mas quando acerta te cutuca e dá uma risadinha com cara de “Tá vendo como eu sou esperto?”. “Puta que pariu” você vai pensar.

Ir ao cinema com a sua amiga gata do inglês pode gerar dilemas existenciais. É que você vai tentar beijá-la. Será que ela vai te beijar de volta? Pode ser que sim. Nesse caso você não vai ver o filme. Tudo bem. Afinal, essa não era a ideia mesmo. Só que pode ser que ela não te beije. Pior, pode ser que ela diga que não vai te beijar porque te considera o amigo menina dela. Ela vai falar isso sem saber que essa é a coisa mais sem noção que a gata do inglês pode falar pra um cara. Nessa hora você vai ficar sem saber se levanta e vai embora, se tenta insistir, ou se assiste ao filme até o fim e aceita o título de amigo menina da gata do inglês. Saiba desde já que aceitar esse título significa que ela vai te contar sobre todos os caras que ela sair. Minha opinião? Melhor é partir pra outra.

Além dessas existem infinitas outras modalidades de ir ao cinema acompanhado. Você pode ir com o seu irmão, com a sua avó, com teu primo do interior que só gosta de filme ruim, mas, como na cidade dele não tem cinema, você deixa sempre ele escolher. Não vou continuar dando exemplos, mas você pode pensar aí em outras opções de ir ao cinema acompanhado.

Já ir ao cinema sozinho é ir ao cinema sozinho e ponto final. Tem gente que não gosta de ir ao cinema sozinho. Acha uma coisa meio deprê. Meio loser… Eu discordo. Eu gosto de ir ao cinema sozinho. É que, sozinho, sem ninguém pra conversar naqueles minutos infinitos pré filme, só o que resta a ser feito é observar. E tem muita coisa interessante pra se observar num cinema. Você pode tentar descobrir se aquele casal sentado na sua frente é um casal de namorados, ou se é o cara saindo com a gata do inglês, pode até ser que você presencie o momento em que ele é chamado de amigo menina. Coitado.

Outro tipo de observação legal pra se fazer quando se vai ao cinema sozinho é a reação das pessoas no final do filme.

No Melancolia, por exemplo, pude esperar todos levantarem. E observar a reação de cada um. Silêncio total. Nenhuma palavra. Nem mesmo do grupo de adolescentes barulhentos sentados na última fileira. As pessoas levantaram, tristes. Eu Também estava triste. Levantei logo atrás delas. E fomos todos descendo em direção a saída como num cortejo. Cabisbaixos e melancólicos. Os casais de namorados estavam de mãos dadas, mas não se olhavam. A velhinha aposentada que foi ao cinema com a neta enxugava uma lágrima.

Só quando saímos da sala e surgiu a luz forte do hall de entrada do Espaço Unibanco é que as pessoas voltaram a falar. a velhinha abraçou a neta. Os adolescentes barulhentos jogaram pipoca um no outro. Os namorados se beijaram, e eu fiquei com a sensação de que aquela última cena vai ficar pra sempre na memória. Colocando o Lars von Trier ao lado de Almodovar, Kubrick, Tarantino no espaço reservado pra cinema dentro das minhas sinapses.

Quem ainda não viu, veja. Mas escolha bem a companhia. Nem que ela seja você mesmo.

Hora de partir.

O coração,
ao meio.

Copacabana

COPACABANA

– É igual na novela!

O maiô, não.

O corpo, imenso.

E o mar.

Estrias, água, grãos, veias.

Branco, azul, branco, azul.

Quando era linda sonhou em nadar.

Hoje as ondas não deixam.