Arquivo para novembro \01\UTC 2011

Grávida no Rio

O céu tremia.

Por causa das crateras na estrada.

Às vezes a lua cheia virava duas.
Depois se juntava de novo.
Como um óvulo fecundado
desistindo de se dividir.

Culpa das lágrimas.

Lembrou das palavras vazando
pelos espaços dos dentes dele.
Cerrados de ódio.

E chorou mais.

Quando desceu na rodoviária já era dia.
Tomou um tapa dos 40 graus.
.
Deu graças a Deus que o táxi tinha ar-condicionado.

– Arpoador, por favor.

No caminho o Rio parecia um adolescente crescendo.

Primeiro feio e desajeitado.
Depois arrumando a postura.
Até se tornar sensual e belo.

` Isso aconteceu depois que atravessaram um túnel qualquer.

Viu a Lagoa.
Viu pedalinhos em forma de cisne.
Viu uns moleques jogando bola.

E sorriu por um instante.

Até que lembrou das amigas dizendo que ela era louca.
Viajar sozinha com a barriga daquele tamanho?

E pensou que loucura
era ficar lá.

Na mesma cidade
que aquele monstro.

Ele disse que o filho não podia ser dele.
Que ela era uma vagabunda.

E que vagabunda tinha que ser tratada como vagabunda.

Aí jogou ela na cama à força.
E baixou as calças até o joelho.

Ela fechou os olhos.
E aguentou.
Seca.

Por medo de machucar o bebê.

Amanheceu com nojo e jurou que iria embora pra sempre.

– A senhora vai descer aonde?
– Hotel Arpoador Inn.

Foi direto pra praia.

Olhou em direção ao Vidigal.
Reparou no arco de texturas.
Mar areia asfalto prédios.
Arpoador Ipanema Leblon.

Mas não se animou com o que viu.

Nuvens pretas vinham de longe.
Preenchendo tudo o que era azul.
Transformando a manhã em noite.

Nessa hora o pensamento foi parar
no dia em que conheceu o monstro.

Estavam esmagados um contra o outro.

Pela baiana do acarajé.
Pela gorda ouvindo axé no celular.
Pelas crianças de nariz escorrendo.
Pelo professor de capoeira.

O elevador Lacerda fedia.

– Sim, eu também pensei que fosse um passeio turístico.

Ele fez ela rir com esse comentário.
E pensou que ela era linda quando ria.

Resolveram continuar o passeio juntos.

Conheceram a Igreja do Bonfim.
Conheceram o Mercado Modelo.
Conheceram o Pelourinho.

No fim do dia estavam
com a sensação de serem
íntimos há tempos.

Ela não resistiu ao convite
de passar a noite com ele.

Acordaram encaixados.
Sem querer desencaixar.

No Arpoador, ondas invadiram o calçadão.
Pessoas tentavam nadar pra terra firme.
A margem, cada vez mais longe.

O céu se encheu de guarda-sóis.
Arremessados pra cima pelo vento enfurecido.

Ela perdeu o ar.
Atingida na barriga por uma das estacas voadoras.

Correu pra se abrigar.

Sentiu a perna ficando quente
com a água que descia
de dentro dela.

Entrou no saguão berrando.

– A bolsa estourou! Pelamordedeus! Alguém me ajuda!
– Calma, moça! Eu sou médico.
– Me leva pro hospital! Por favor!
– A cidade tá um caos!
– E agora?
– Fica calma. Vai dar tudo certo!

Ele pediu que trouxessem umas toalhas.
Ele pediu que ela deitasse no sofá.
Ele pediu a Deus que o ajudasse.
Ele pediu pra ela fazer força.

O bebê escorregou por uma gosma
cremosa, vermelha quase preta.
Primeiro a cabeça depois o resto.

Nasceu!

Morto.

Do lado de fora os guarda-sóis descansavam em cima de quiosques.
E pessoas se abraçavam sem acreditar que ainda estavam vivas.

O vento tinha parado de gritar
O mar tinha voltado pro lugar.

Ela pegou o filho no colo e ficou agarrada nele.
Sem querer soltar.

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