A turma do fundão

Por pura preguiça de subir a ladeira, resolvi  ir de  ônibus . A pé normalmente é mais rápido, uns vinte minutos da Martins Fontes até o cruzamento da Augusta com a Paulista. O ônibus talvez demore esse tempo só pra passar. Mas é subida e o calor, insuportável.

No ponto, cinco meninos. Descalços, sujos e alucinados. Todos parecidos, estereótipo de meninos de rua mesmo. Entre eles estava o  Alemão. Era assim que seus amigos o chamavam. Pele clara, cabelo encaracolado, olhos azuis. Bem menor que os outros e, ainda assim, parecia liderar o grupo. Levava, em uma das mãos, uma placa. Daquelas que ficam na lateral dos ônibus com o nome das ruas. Na outra, um saquinho cheio de uma pasta amarelada que ia ao nariz e à boca de tempos em tempos.

 Quando me percebeu ali, enfiou o saquinho no bolso de trás do short rasgado e correu em minha direção segurando a placa como o troféu de um campeonato. Corria e gritava:

 – Tá vendo essa placa aqui, tio? Roubei do ônibus. Aquele motorista, cuzão, não deixou a gente entrar de graça! Aí roubei! Tá vendo aqui?

 De costas para mim, ele começou a ler. Bem devagar, como quem está aprendendo:

– Man-da-qui. Ele vai pro Mandaqui! Manda aqui, manda ali! Parece até eu!

Os outros meninos começaram a empurrar o Alemão como que pra dizer que ele não mandava nada. No alvoroço um deles deixou cair uma faca. Tremi. Mas eles não estavam ali pra roubar, queriam era uma carona no ônibus.

Nesse momento aproximou-se de nós uma moça com um menino de uniforme do colégio. Ao reparar naquela garotada ela apertou a mão do filho, que resmungou: – Ai, mãe! – Ao mesmo tempo um dos amigos do Alemão tentava roubar o saquinho de cola do bolso de outro. – A minha já secou! – Apavorada, a mãe apertou a mão de seu filho ainda mais forte. – Ai, mãe!- Os dois se foram. A pé mesmo; e com pressa.

A molecada pegou o mesmo ônibus que eu. Ao ver a placa  roubada na mão do Alemão, o motorista enrugou os olhos, fez bico puxando a boca para o lado direito do rosto e o encarou. Como faz o pai com filho desobediente. O menino, com o peito cheio e um sorrisão, disse:

– Obrigado, tio!

Sentou-se na última fileira, ao lado de seus coleguinhas. bagunçavam, cantavam e faziam de tudo para chamar a atenção dos outros passageiros. Feito ônibus de excursão de colégio.

-Che Romaro

(Baseado em fatos reais)

ps: Caso alguém queira utilizar os textos postados nesse blog, sinta-se a vontade, só peço que creditem da seguinte forma:

Texto do blog http://www.daquidecima.wordpress.com por Che Romaro. 

Obrigado!

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    • maira
    • 16 de novembro de 2009

    Thiago! FANSTÁSTICAS as suas crônicas!
    Te admiro muito!! Parabéns!
    beijos

    • Gabriela
    • 17 de novembro de 2009

    Meeu, como voce escreve bem..nossa gostei muito, continue que o blog esta muito bom, haha
    :*

    • bree
    • 21 de novembro de 2009

    uau

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